Passagens #1
De começo, um parricídio.
Muitos quiseram matar o próprio pai. Eu também quis matar o meu. Não foi um pensamento repentino. Foi, na verdade, um desejo insistente, que veio brotando e latejando no fundo da alma, pesando no peito. Eu quis muito matá-lo. Quis com todas as forças da minha alma e do meu coração. E eu o fiz. Fiz porque deveria ser feito. Fiz porque todos precisavam dessa morte. Fiz porque muitos deviam querer assassiná-lo. Matei porque eu era o único que poderia fazê-lo. Assim, combati o bom combate. Cumpri minha missão.
Agora, aqui parado diante do senhor, painho, que, inerte, me olha com olhos gelados, vejo que tudo poderia ter sido diferente. O que eu mais quis desde que comecei a perceber as coisas era ser próximo do senhor. A distância entre nossos corpos agora é muito pequena. Se eu esticar o braço, posso tocar os dedos do seu pé esquerdo. São feios, compridos e finos, com as pontas largas, negras e achatadas. O dedão lembra uma cabeça de lagartixa. Olho para os meus pés e vejo que tenho dedos iguais, tão répteis quanto os seus. Temos muito mais semelhanças do que diferenças.

