Passagens #2
Desavenças familiares.
Primeiro o Primo Niltinho falou algo sobre eu não saber o que falava. Permaneci imóvel. O Primo Niltinho dava passos largos e batia no peito gritando alguma outra coisa que eu não lembro, na verdade nem me importava, naquele momento já tinha visto o garfo sobre a mesa, meio jogado ao lado do prato, esperando. Conhecendo o Primo Niltinho, ele deve ter falado algo sobre “ser macho”, “ser homem” ou “ir lá fora resolver”. Mas nada disso despertou aquele sentimento que meu amigo tinha descrito, foi só quando o Primo Niltinho fez um gesto aberto com os braços, empurrando as pessoas ao seu redor, que o mundo se tornou um grande borrão vermelho.
Agarrei o garfo com a mão direita e não parei o movimento nem por um segundo. Como em um passe de mágica, o garfo sumiu de cima da mesa e surgiu enfiado no olho esquerdo do Primo Niltinho. Preciso confessar que achei que o olho humano tivesse um pouco mais de resistência, sem quase nenhuma força os dentes do garfo sumiram no olho dele. Primeiro houve um líquido grosso e gosmento que voou na minha mão e escorreu pela sua face, depois foi como se uma mangueira de sangue tivesse sido ligada. Talvez eu tivesse acertado outra coisa além do olho.
O monstro debaixo da cama, de Vinicius Carlos Vieira. (Do conto “Primo Niltinho”).


É um honra enorme!!!! Muito obrigado...